sexta-feira, 9 de abril de 2010

Shining

Um brilho qualquer, pálido e insípido, ilumina o teu corpo, igualmente pálido e insípido, escultural, jazido num fluir majestoso de sangue. Penetras, incessantemente o peito, e nesse acto sórdido e mórbido de prazer vês na lâmina, esse espelho tão vertiginosamente agudo, a tua cara de sofrimento a culminar, com um som ou mero sopro onde se indistingue um gemido e um grito de horror, num orgasmo ou uma coisa qualquer indescritível, um momento de inconsciência e de revelação em que te fazem cócegas nos neurónios e confundem as sinapses até rebentares numa overdose electrostática que se propaga até às mais sombrias cavidades e ínfimos interstícios. E rodas e voltas a espetar a faca enquanto te corre consciência pelas veias dilaceradas, num acto contínuo e masturbatório até que tussas essanguetada o teu último fôlego. E é nesse momento que te perpetuas, nua e mórbida sob o frio esbafeado duma lâmpada intermitente, o ruído eléctrico e das traças frenziadas nunca te pareceu tão intenso, tão macabro e austero. E vês o sangue a escorrer como uma nascente e a brilhar num espelho vermelho e apaixonado da tua triste e sinuosa figura. Vês trepidamente os teus olhos a tremer, as lágrimas a escorrer diluindo-se no vermelho sem fim, sorris, as paredes negras do vazio abatem-se sobre ti, perdeste-te.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Odeio-te por veres o mesmo mundo que eu e estares apaixonada por ele.
Odeio-te por no silêncio dizeres mais de ti que sabes,
Odeio-te por veres mais a nascer que a morrer,
Odeio-te por que és feliz e me alumias a alma, tão suja que só a tua luz o mostra.
Odeio-te porque não existes mais que aqui
Odeio-me porque te odeio
Odeio-te porque te amo,
Odeio-me por não poder.

domingo, 14 de março de 2010

Se algum dia apareceres, foge para longe, Se existires, tenta morrer ou esquecer. Se te procurarem, não te dês, Se procurares alguém, pára. É Inútil. Quando vires nojo, ódio e podridão à tua volta,
não estranhes, é sinal que as coisas estão como devem. Ninguém gosta de ti nem de ninguém, Deus abandonou-te e abandonou-se, desistiu de existir. Não há nada senão este lugar ermo e podre e outros lugares ermos e podres. Tens medo, muito medo, avisaram-te que ia ser assim, Mas nunca percebeste. Agora percebes. Percebes o que é ver a tua alma despedaçar-se como lepra em frente a um espelho, Percebes o que é pavoneares-te na rua como carne num talho, à espera de ser fatiada e devorada. Agarraste àquilo que tens, à vontade de te agarrares a alguma coisa. És, ou pelo menos foste, demasiado pura para estar neste mundo. Já não és, Já te devoraram, Já te violaram, és mais um produto dessa qualquer coisa rastejante, mucosa e regurgitada. Desculpa.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A ratazana

Um grito ou um urro qualquer gutural ressoa, húmido, nojento e asqueroso, como que vindo dum cano de esgoto, ritmado pelo bater das pingas e o ruído das ratazanas, esses bichos curiosos, filhos do infortúnio, que nada fizeram senão dar-se gratas por ter tudo do que é reles, nojento, putrefacto e comestível. E nesses guinchos de ódio milenar ganham o fervor e a vontade de vingar já nem sabem o quê. Não querem saber, não devem saber, não podem saber. Não podem saber que são a praga, para que possam ser a praga. Têm de marchar, como hostes enfurecidas e desvairadas de canibalismo amontoado da mais nojenta perversão e atacar. Atacar, consumir, regurgitar, defecar, infectar e violar tudo quanto lhes apareça pela frente.

No subsolo, na base e na cave escura de uma qualquer coisa funcional vive sempre uma outra coisa desenfreadamente disfuncional e irracional, que se alimenta de tudo quanto é despejado, recalcado e excretado pelos outros, os outros belos, os outros sublimes, os outros que de nada escumalha têm, pois deitam a essa escumalha que repisam toda a sua escumalhisse bruta e deslavada. E por baixo dessa escumalha, há uma outra escumalha mais escumalhosa, e por debaixo dessa, uma outra, e assim por diante. Essa bela humanidade há de ser consumida pelos abutres da sua própria natureza, e os abutres pelos ratos, os ratos pelos vermes, os vermes por mais vermes, e esses por fungos e demais coisas macabras e nojentas. A beleza e a funcionalidade organizacional sustentam-se no equilíbrio, mas os demais que que equilibram a pirâmide no seu vértice hão de tombar, e tudo se desmoronará, deixando nada mas a ralé e a escumalha de sobra, a que vive das sombras, da ruína e do cadáver.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Lógica

Hoje estou com vontade de postar, mandar postas, bater contra um poste ou qualquer coisa assim. Como não há bacalhau (e isto é mais triste do que parece) nem tenho postes dentro de casa (há quem tenha sinais de trânsito, portanto a possibilidade de haver um poste dentro de casa não parece tão remota) lá tive de postar.
E subitamente, nesta urgência de postar, surgiu-me na cabeça "poio". Todo este blog é cocó fresquinho afinal. Mas depois pensei, se poio é cocó, aquilo que não é ou se vê ausente de cocó é apoio. Sendo que apoio em francês é soutien, soutien é tudo aquilo que não tem cocó, e daqui pude finalmente deduzir que mamas são boas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Manifesto Ex Nihilo

Os olhos estalam-me e piscam prequelitantemente
Numa abuia ao revolucionário objecto ocular.
Aquele que nada novo me faz ver
e do velho só mostra as entranhas, revolvidas e putrefactas
que cavalgante e loucamente impulsionam e propulsam o sangue.
O visceroso, fervoroso e mucoso líquido escarlate.
O sangue de toda a besta humana,
de toda a paixão, guerra, vingança e matança preguiçosa,
o sangue da seringa que te viola toda a inocência e toda a pureza em cada poro
O sangue que te ebule e te mata a consciência.
O pulsar jusante de vida que impulsiona esse vómito e esse nojo para toda esta panóplia grotesca de sensações abjectas.

Sim, a futilidade do eu, do tu e do vós.
Ah, tanta alta metafísica e elaborada religiosidade,
Tanta tecnocracia e industrialidade.
"Tudo existe porque tudo provamos,
tudo provamos porque o tudo queremos,
o tudo é tudo porque sempre fui e há de ser tudo,
e somos tudo porque criamos o tudo"

Escorre-vos medo pelas cavidades,
Medo de que toda a bela criação, evolução, progressão e deificação se suma num suspiro,
Medo que se dissolva num vórtice de entropia tomando por mero absurdismo entretinente toda a vossa acção deliberada no propósito abissal.
Que se arraste sem que vos arraste a vós para o abismo da verdade e vontade metamorfa,
que tão bem se engana como engana a vós na sua indubitavelmente dúbia inexistência.

E acordas, ofegante, suado, delirante.
Afogas-te na tua loucura porque a desejaste.
Desde a precária e desmesurada génese teotécnica que ardes
Ardes no desejo, no amor e na paixão,
Ardes na blasfema tentação de te tentares pela blasfémia,
Ardes por arder na monumentalidade da pira noctívaga.
Combustas nas tuas reles e macabras dúvidas
e voltas a drogar a máquina.

A máquina das rodas dentadas que te mastigam ruminam e regurgitam,
Dos êmbolos que te violam, cíclica e pendularmente com o bater e respirar maquinal de uma fera sedenta e raivosa.
A máquina dos intermináveis indetermináveis erros de seriação e provocação.
Os magistrais e ancestrais eixos da universalidade sustentada,
Os que erguem bem alto a cortina intoxicante e dolorosa,
A do toque acetinado que te acaricia intolerantemente com toda a angústia e sofrimento,
A decoração prostrada e luxuriosa que te consome de inveja e possessão.

E mais que tudo, o delírio desvairantemente desvariado da curiosidade sufocante.
Escorres sedimentado para o abismo conforme a verdade se desintegra aos teus olhos e absolves-te no vazio.
No frio e escuro vazio necrófago.

Num fôlego, vês a carnivalesca versão do mundo:
O desfile das utopias canibais,
Os carros alegóricos a radiar a euforia cósmica,
E a forja das vaidades teatrais
Onde, lenta e dolorosamente, se derretem as máscaras e identidades.

O ar expirou, numa nuvem vaporizada e espiralesca,
dissipando-se no cosmos, tão disperso e acolhedor, o cosmos.
Espairas asas como a fénix e sobrevoas o abismo,
consagras-te sob a catarata do aço líquido
e projectas-te inconscientemente no infinito.

Numa acreção mórbida vês-te rodeado de toda a vermalhada podre.
Desintegras-te em matéria excreta e adubante e dissipas-te.
Dissipas-te num ciclo sumptuoso, tortuoso, e ironicamente voluptuoso do último fôlego
O do nada, tão profundo e absoluto, que de trevas te ilumina.
Do nada que te engole, na garganta funda e sórdida,
tão abismalmente asquerosa,
tão delirantemente esclarecida.
E que num vómito convulso de nojo te eterniza nessa eternidade inexistente

E de repente és a criança afortunada e ingénua outra vez,
a descer o escorrega vortiçal até ao nirvana.

És nada, não és, não foste.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vive

Olhas para o alto, e esperas.
Esperas que a chuva te lave e te leve.
esperas que te lave as lágrimas
e que te limpe o suor.
Esperas que te enxague o sangue,
tão vivido e gasto,
o das tuas mãos e o dos outros.
Esperas que te levem e te arrastem
nas torrentes de lama e lixo,
que de tão sujas te lavam.

E rebolas,
gritas,
despes-te.
Gastas-te e esfolas-te
Exausta, deixas-te cair para os braços de ninguém.
E adormeces, a sorrir,
a sonhar com uma qualquer coisa
que nem é deste mundo
de tanto que te faz sorrir.
Estás quente, aconchegada,
não queres acordar,
não acordas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O queijo da serra é carnívoro e cheira mal da boca.

O queijo da serra é carnívoro e cheira mal da boca.
Ora bem, o que se sucede é que o leite da ovelha tem instinto e vontade própria, amamentar o borrego. Ora, o queijo, como é sabido, é a perversão do leite (resta dizer que o requeijão é uma espécie de exorcismo, daí que já venha tão mole e desfeito, é que isto de entrar demónio, sair demónio é um stress que dá cabo de qualquer um.) Por conseguinte, se o propósito do leite é dar vida ao borrego, o do queijo será tirar. Portantos, o queijo da serra mata a cria da ovelha e digere-o, o que lhe confere o aspecto tosco e amanteigado. Resta dizer que o "amanteigado" é nhanha.

"Crê que uma anarquia baseada na ética deontológica postulada por Kant seria uma utopia viável ou que para haver progresso é necessária implicitamente uma hierarquia e ordem?" "O queijo da serra come borregos e cabritos putrefactos, o que lhe confere a textura amanteigada que tanto apreciamos", isto era win over limiano, digo.

E assim se dá a explicar a razão pela qual as pessoas que gostam de borrego tendem a gostar de queijo da serra. (Qual razões sócio-culturais relacionadas com a pastorícia do gado bovino...)

domingo, 17 de janeiro de 2010

V - A Queda

Lúcifer, o mais belo e perfeito dos anjos. Iludido pela sua perfeição, rebelou-se e quis usurpar o trono de Deus. Fui expulso e exilado por se recusar a servir a Deus e consequentemente à sua criação, o homem. Caiu. E com ele as suas hostes corrompidas de orgulho e pecado. Ele era a luz e essa luz fora levada para o submundo.
Arfava, cansado. O ar frio, a neve e a sombra da floresta agonizavam-lhe a respiração. Não obstante, regozijava. Conseguia ver o enorme sol a amanhecer diante dele e a alumiar todas as terras das gentes pequenas. Dava-se feliz por estar circundado daquelas montanhas arrepiantes, pareciam proteger aquela gente inocente de todo o mundo à volta. Aquele mundo do qual apenas tinham uma vaga ideia muito aconchegada à das histórias adulteradas dos mercadores que lá passavam. Diziam que havia um homem, um rei, um déspota, que queria unificar todo o mundo num só reino. Ao que parece, aquilo que começara como uma utopia de um homem esclarecido e sábio, estava a tornar-se numa carnificina global.
Por onde passava trazia choro, sangue e putrefacção. Violavam, pilhavam, saqueavam, matavam, e regozijavam-se naquele banho de sangue. A cor vermelha e o gritos de horror pareciam despertar todo o ódio e loucura nos soldados. Tornaram-se criaturas sedentas de sangue, que não podiam largar o vício. Para as jornadas mais longas, quando a sede da batalha começa a secar, levavam prisioneiros, para os poderem mutilar e chacinar num acto masturbatório.
As hostes moviam-se sob quatro estandartes: Um, o da cavalaria regia-se pela máxima "veni, vidi, vici", bem visível num pano branco que ondulava orgulhosamente no vento. Outro, o da infantaria pesada, espadachins experientes, besteiros e outros que tais, regia-se por um estandarte vermelho com duas espadas curzadas. Dizia-se que nas suas veias corria sangue de espartanos. O terceiro, trazia com ele a peste. Pouco sabiam de guerra e de armas aqueles covardes, mas queimavam, violavam e destruiam tudo quanto viam, não conquistavam, mas espalhavam o desespero e a discórdia. E havia o quarto e último. Todos pareciam temer perante ele. Não trazia um estandarte, apenas um tridente com três cabeças putrefactas espetadas. Aquele exército fedia a morte, eram criaturas que já tinham esquecido o que era viver. Matavam maquinalmente e espalhavam o terror. Não tinham nome nem história. Nunca existiram nem nunca hão de existir, eram simplesmente, a morte.
No dia seguinte, o sol surgiu vermelho, por detrás da montanha. As hostes haviam chegado àquele lugar remoto. O que era verde secou, os rios cristalinos ficaram vermelhos. A neve derreteu coberta pelo fumo. Os homens daquela harmoniosa terra, no desespero e no terror, pareceram ter perdido a alma e o discernimento. Matavam-se por fatias de pão, possuiam as mulheres uns dos outros, e parecia haver um novo chefe a cada 5 minutos tal era o desejo de poder e a presunção.
O Homem quis ser Deus, e possuir-se a si mesmo. Perdeu a alma e a essência. O homem é pequeno e deve resignar-se. O desejo de não desejar por tudo possuir é pecaminoso Ame-se, viva-se, libertem-se aos prazeres da carne e do sangue. Aquilo que nos alumia e faz viver, nada mais é senão a luz do desejo. O Homem que sonhe e que deseje, mas que não se torne mestre dos seus sonhos. Somos luz e escuridão. Aquele que ouse chegar à luz cega-se e fica para sempre preso na escuridão. Não há nada que nos corrompa, nem que acelere o nosso fim senão aquilo que está em nós. No entanto, enquanto não o conhecermos, poupamos essa agonia e continuamos a temer aquilo que não existe. Perder o medo é morrer, morrer é ter medo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O pêndulo e o croquete

O croquete estava na ponta do pêndulo. E balançava. E o cão saltava, mas não o apanhava. O croquete estava aborrecido, de um lado para o outro, a deixar migalhas de pão ralado numa espécie de nuvem electrónica mal amanhada. E a carne esfriava, e o arroz esfriava.

E ei-lo que surge! O douradinho, trazendo a luz e a confusão, o pânico e a idolateração. O supremo pescada. E no entanto, trazendo tanto brilho e admiração, apenas passa fugaz e fumegante, para um outro prato qualquer de arroz de tomate sedento.

Couves, terrábias, salada, nada o salva o croquete era seco e frígido. Carne gasta e moída.

Mandou vir a sobremesa.
Era mousse de ananás, de ananás.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Manifesto Anti-anti-social

Os anti-sociais, são pessoas más, e pouco escrupulosas,
Porque cascam numa sociedade que está podre.
Às coisas podres, põem-se flores e rezam-se missas,
ou pelo menos, tem-se pena.

E que raio tendes vós contra a podridão,
cheira mal?
é esquisita?
tem nhanhaa?

Quão santos e sacros sois vós afinal?
Nada vos motiva senão o ódio e a ganância,
Odeiam-nos e querem ser como eles.
Querem tanto a carne e o sangue como eles.
Oh, querem tanta carne.
Se pudessem, chacinavam-nos a todos e montavam um talho
Mas depois, a carne está podre, quem a ia querer?
E depois deprimiam, os coitados,
precisam de se integrar na sua desintegração,
mariquice, é o que é.

E agora, morremos todos, querem ver?
Uuuh, Julgamento final...
Não era isso que queriam?
Vá, façam lá esses sorrisinhos malandros e caras de "I told you".
Que interessa?
Também vão arder!
Ha-Ha!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Le morts de Notre Dame de Paris

A monotonia dança, envergonhada e macambúzia, tomada pelo braço embrutecido dum qualquer maestro mascarado, enquanto ele agita, de igual monótono modo, a sua batuta, regendo uma orquestra de sofredores esquizofrénicos, violadores masoquistas e inquisidores apicultores. Entoam, muito sincromáticamente, uma ode a tudo de que lhe foi tirado. A morte, a vida e a confotável consciência. Tiveram pátria e família, apegaram-se ao mundo, e subitamente, tudo lhes tinha sido aspirado, estavam nus, doentes, e dementes.
Gritaram e gritaram, até que esses gritos ecoassem algo que os apaziguasse. Depois choraram, e esperaram que das lágrimas se fizesse um rio que desaguasse num qualquer mar de nostalgia melancólica. Deixaram-se levar pelos delírios, até que se encontraram, ali, naquele antro magestoso, aterrorizante, frio e escuro. A acústica fazia parecer o simples cair de uma pinga uma tempestade, e o vento que esbatia uma voz de um qualquer Deus ancestral.
Ali, só encontraram mais terror. Os gritos e prantos angustiosos só lhes esvaziavam a alma e o silêncio cavernoso parecia devorar tudo o que de humanos lhes restava. E subitamente, com o cair de uma pedra, gritaram todo o que lhes saía, e desses gritos saíram cantos, de um coro enraivecido e sobrenaturalmente assustador. Reminescia, em quem ouvia, tudo o que de mais podre e vil existe: o ódio, a carnalidade, o medo. Dizia-se que quem entrava na sua catedral enlouquecia, e se tornava um deles. Até as gárgulas pareciam entoar o canto macabro.
Escutava-se a morte à porta daquele edifício, era linda, a coisa mais bela e majestosa, nela ardia o desejo e a negação, o prazer e a angústia, dor e mais dor e mais dor, o terror gelado, e por fim, a vida. Tornaram-se transcendentes à sua consciência.
Mortos, prepetuaram a sua morte naquela sinfonia.
Eu tenho de cair para me levantar, e tenho de estar de pé para cair. Quer rasteje quer ande a vida toda a pé, vai dar ao mesmo, nunca soube realmente o que era levantar-me ou o que era cair.

Agora já quero asas.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Cambada de leprosos, estão a cair aos pedaços.
As vossas entranhas, a vossa carne,
o sangue que é vosso e dos vossos,
gorduroso, pastoso, preguiçoso e lânguido.
Apodrecem e não morrem.
Tão vazia é vossa alma,
que nem vale a pena devolve-la ao mundo.
Dão logo esse corpo, reles e molengo,
e dão-lo a consumir, por entre vós,
pela peste, pela lepra,
pelos vermes que rastejam na vossa existência,
e pelos demais que vos querem comer.
Canibais moribundos e necrófagos imundos,
Assim é a vida e assim viveis.
Ide em paz.
A musa é a arte que inspira à criação da arte. Sem ela, não há arte nem criador. A musa necessita de ser criada, concebida, ou pelo menos admirada. A musa é o puro abstracto que apenas se concretiza no sujeito, é a beleza, para a obra bela de um criador inspirado, é o ódio para aquele que odeia, é a dor para o que sofre. Para haver arte, há que haver sentimento. Quando este fluxo for interrompido, quer por falta de musa ou falta de arte, a humanidade estagnará, pois ficará preenchida de tédio e vazio.

Deixa que te admire, deixa que te sinta, deixa-me viver e ser humano enquanto possa. Deixa que te crie tudo e nunca te deixe ver, deixa que eu sofra, deixa que eu deseje, e nada mais.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Estou nu, despojado de tudo.
Tiraram-me os bens e as inutilidades
Os amigos, a família, esses outros.
Amor, ódios, culpa, ressentimentos
e todos os demais pensamentos
já não os conheço.
Aos sonhos e aos desejos,
deixo-os com o sentimento,
de que em algum momento,
tenham sido mais que isso.

Agora vou renascer,
viver de novo,
e acordar com esta panca
de que quero outra vida.
O caminho do progresso é a reconstrução de paradigmas. Este blog está preso a um paradigma, como tal, é preciso acabar com todos os padrões, valores e demais associados, para que progrida.

Aqui vai:

Tu és cócó.

Ciclo da vida

A vitela comia erva. E engolia, e mastigava, e ruminava, e voltava a mastigar, a ruminar. E assim se fazia a sua vida. Até que um dia chegou lá um belo dum gafanhoto e disse: "Ah, e tal, eu e mais uns quantos amigos vamos-te comer a erva toda." E ela "Ah, tá bem". E eles vieram, e com eles trouxeram a peste, a fome, algumas hemorróidas, e uma comichão na orelha do Sr. Jaquim, que afinal de contas era só um piolho afogado em sarro. E assim, as vacas ficaram sem erva, os homens ficaram sem leite, e os chineses continuaram a ser mais que as mães. Com tamanha tragédia, a vitela foi pastar para outro lado, onde conheceu um ganda boi. Apaixonaram-se e ela ficou prenha. (Isto com bicharada costuma ser bastante imediato.) Um dia, ia o boi a voltar a casa depois de um dia stressante de trabalho e conforme ia a atravessar para ter com a sua amada veio um camião. Ela bem gritou "Oh boi, sai da estrada!" mas em vão. Despedaçado o coração da vitela (agora vaca), fizeram-se iscas.
Bem boas que estavam.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sapiência

"Os pelos na orelha não só a maneira da natureza te dizer que não deves ouvir os outros"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Egeiro

Ele acordou, era mais um dia, igual a tantos outros. Espreguiçou-se mecanicamente num bocejo preguiçoso. Levantou-se, ainda a coçar a virilha, e abriu as cortinas. Estava um dia cinzento, chuvoso, carrancudo. Cumpriu todos os ritos matinais, e fez-se a mais um dia de ócio. Ele era mais um daqueles estorvos sociais: não trabalhava, vivia da herança duma tia rica, era, em suma, um parasita.
Mas esta manhã fora estranha, ou pelo menos, assim lhe parecera. O cão do vizinho não lhe ladrara nem correra atrás dele. Aliás, nem notara a sua presença, ficara de orelhas hirtas a escutar o vento. A pastelaria onde ia comer a sua tão adorada bola de berlim, estava fechada, com um daqueles letreiros de volto já que duram para a manhã toda. No entanto, lá teve de se resignar e seguir com as inutilidades da sua rotina. Sentou-se no seu banquinho de jardim, e pôs-se a mirar as árvores, as mesmas árvores de sempre sob o mesmo céu de sempre, no mesmo jardim de sempre, a sua vida tinha sido aquilo.
Conforme percorria as ruas daquela cidade, uma cidade cinzenta, suja, apinhada de gente sem vontade nem destino, apercebia-se do quão acomodado estava e do vazio que aquelas multidões lhe provocavam. Quanto mais deambulava, mais se apercebia de que era apenas mais um, uma coisa corriqueira sem identidade que fazia número e nada mais. Via nas pessoas os olhares distantes, perdidos em devaneios e sonhos de uma vida não vivida. Via a indiferença com que a gente se dava, os falsos afectos, os sorrisos cínicos. E nessa maré de gente, via-se a si: só, desorientado, angustiado sem saber bem de quê ou de quem era a culpa. Não encontrava ponta de significado ou sentido no meio daquilo tudo. A vida daquelas gentes, para ele, não se assemelhava a nada mais do que cotão, um aglomerado de lixos e futilidades emaranhadas que andavam ao sabor do vento.
Pelo caminho desse seu passeio matinal (que já pouco matinal era, o sol ia alto e as cozinhas dos restaurantes já fervilhavam de cheiros e fumos) parou na Igreja. Não que ele fosse muito crente, mas achava o monumento bonito e o fascínio pela arquitectura prendia-o sempre naquele local. Especou-se ali, e maravilhou-se: com a estética, com o trabalho, e com a fé que motivara tudo o mais. Desejara acreditar, desejara ser um cordeiro que seguisse o rebanho inocentemente até ser abatido pelo seu pastor.
Um forte odor de carne a grelhar invadiu-o e fê-lo salivar e evadir-se de todo aquele remoer ruminante de dissertações. Um nó torceu-lhe o estômago e, pouco relutantemente, lá sucumbiu aos prazeres alimentícios. Espetaram-lhe um bife essanguetado na frente e ele devorou-o, qual besta faminta e primitiva. O sabor ferroso do sangue do bovino anónimo ficara-lhe no paladar pela tarde fora.
Fez-se tarde, voltou para casa cheio de vazio. Olhou para a cama. Os lençóis estavam manchados de sangue. Neles, jazia o seu corpo, morto, inanimado e com uma bala cravada nos miolos.
Despertara, o dia voltara a ser o mesmo.