terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Vive

Olhas para o alto, e esperas.
Esperas que a chuva te lave e te leve.
esperas que te lave as lágrimas
e que te limpe o suor.
Esperas que te enxague o sangue,
tão vivido e gasto,
o das tuas mãos e o dos outros.
Esperas que te levem e te arrastem
nas torrentes de lama e lixo,
que de tão sujas te lavam.

E rebolas,
gritas,
despes-te.
Gastas-te e esfolas-te
Exausta, deixas-te cair para os braços de ninguém.
E adormeces, a sorrir,
a sonhar com uma qualquer coisa
que nem é deste mundo
de tanto que te faz sorrir.
Estás quente, aconchegada,
não queres acordar,
não acordas.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

O queijo da serra é carnívoro e cheira mal da boca.

O queijo da serra é carnívoro e cheira mal da boca.
Ora bem, o que se sucede é que o leite da ovelha tem instinto e vontade própria, amamentar o borrego. Ora, o queijo, como é sabido, é a perversão do leite (resta dizer que o requeijão é uma espécie de exorcismo, daí que já venha tão mole e desfeito, é que isto de entrar demónio, sair demónio é um stress que dá cabo de qualquer um.) Por conseguinte, se o propósito do leite é dar vida ao borrego, o do queijo será tirar. Portantos, o queijo da serra mata a cria da ovelha e digere-o, o que lhe confere o aspecto tosco e amanteigado. Resta dizer que o "amanteigado" é nhanha.

"Crê que uma anarquia baseada na ética deontológica postulada por Kant seria uma utopia viável ou que para haver progresso é necessária implicitamente uma hierarquia e ordem?" "O queijo da serra come borregos e cabritos putrefactos, o que lhe confere a textura amanteigada que tanto apreciamos", isto era win over limiano, digo.

E assim se dá a explicar a razão pela qual as pessoas que gostam de borrego tendem a gostar de queijo da serra. (Qual razões sócio-culturais relacionadas com a pastorícia do gado bovino...)

domingo, 17 de Janeiro de 2010

V - A Queda

Lúcifer, o mais belo e perfeito dos anjos. Iludido pela sua perfeição, rebelou-se e quis usurpar o trono de Deus. Fui expulso e exilado por se recusar a servir a Deus e consequentemente à sua criação, o homem. Caiu. E com ele as suas hostes corrompidas de orgulho e pecado. Ele era a luz e essa luz fora levada para o submundo.
Arfava, cansado. O ar frio, a neve e a sombra da floresta agonizavam-lhe a respiração. Não obstante, regozijava. Conseguia ver o enorme sol a amanhecer diante dele e a alumiar todas as terras das gentes pequenas. Dava-se feliz por estar circundado daquelas montanhas arrepiantes, pareciam proteger aquela gente inocente de todo o mundo à volta. Aquele mundo do qual apenas tinham uma vaga ideia muito aconchegada à das histórias adulteradas dos mercadores que lá passavam. Diziam que havia um homem, um rei, um déspota, que queria unificar todo o mundo num só reino. Ao que parece, aquilo que começara como uma utopia de um homem esclarecido e sábio, estava a tornar-se numa carnificina global.
Por onde passava trazia choro, sangue e putrefacção. Violavam, pilhavam, saqueavam, matavam, e regozijavam-se naquele banho de sangue. A cor vermelha e o gritos de horror pareciam despertar todo o ódio e loucura nos soldados. Tornaram-se criaturas sedentas de sangue, que não podiam largar o vício. Para as jornadas mais longas, quando a sede da batalha começa a secar, levavam prisioneiros, para os poderem mutilar e chacinar num acto masturbatório.
As hostes moviam-se sob quatro estandartes: Um, o da cavalaria regia-se pela máxima "veni, vidi, vici", bem visível num pano branco que ondulava orgulhosamente no vento. Outro, o da infantaria pesada, espadachins experientes, besteiros e outros que tais, regia-se por um estandarte vermelho com duas espadas curzadas. Dizia-se que nas suas veias corria sangue de espartanos. O terceiro, trazia com ele a peste. Pouco sabiam de guerra e de armas aqueles covardes, mas queimavam, violavam e destruiam tudo quanto viam, não conquistavam, mas espalhavam o desespero e a discórdia. E havia o quarto e último. Todos pareciam temer perante ele. Não trazia um estandarte, apenas um tridente com três cabeças putrefactas espetadas. Aquele exército fedia a morte, eram criaturas que já tinham esquecido o que era viver. Matavam maquinalmente e espalhavam o terror. Não tinham nome nem história. Nunca existiram nem nunca hão de existir, eram simplesmente, a morte.
No dia seguinte, o sol surgiu vermelho, por detrás da montanha. As hostes haviam chegado àquele lugar remoto. O que era verde secou, os rios cristalinos ficaram vermelhos. A neve derreteu coberta pelo fumo. Os homens daquela harmoniosa terra, no desespero e no terror, pareceram ter perdido a alma e o discernimento. Matavam-se por fatias de pão, possuiam as mulheres uns dos outros, e parecia haver um novo chefe a cada 5 minutos tal era o desejo de poder e a presunção.
O Homem quis ser Deus, e possuir-se a si mesmo. Perdeu a alma e a essência. O homem é pequeno e deve resignar-se. O desejo de não desejar por tudo possuir é pecaminoso Ame-se, viva-se, libertem-se aos prazeres da carne e do sangue. Aquilo que nos alumia e faz viver, nada mais é senão a luz do desejo. O Homem que sonhe e que deseje, mas que não se torne mestre dos seus sonhos. Somos luz e escuridão. Aquele que ouse chegar à luz cega-se e fica para sempre preso na escuridão. Não há nada que nos corrompa, nem que acelere o nosso fim senão aquilo que está em nós. No entanto, enquanto não o conhecermos, poupamos essa agonia e continuamos a temer aquilo que não existe. Perder o medo é morrer, morrer é ter medo.

sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

O pêndulo e o croquete

O croquete estava na ponta do pêndulo. E balançava. E o cão saltava, mas não o apanhava. O croquete estava aborrecido, de um lado para o outro, a deixar migalhas de pão ralado numa espécie de nuvem electrónica mal amanhada. E a carne esfriava, e o arroz esfriava.

E ei-lo que surge! O douradinho, trazendo a luz e a confusão, o pânico e a idolateração. O supremo pescada. E no entanto, trazendo tanto brilho e admiração, apenas passa fugaz e fumegante, para um outro prato qualquer de arroz de tomate sedento.

Couves, terrábias, salada, nada o salva o croquete era seco e frígido. Carne gasta e moída.

Mandou vir a sobremesa.
Era mousse de ananás, de ananás.

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Manifesto Anti-anti-social

Os anti-sociais, são pessoas más, e pouco escrupulosas,
Porque cascam numa sociedade que está podre.
Às coisas podres, põem-se flores e rezam-se missas,
ou pelo menos, tem-se pena.

E que raio tendes vós contra a podridão,
cheira mal?
é esquisita?
tem nhanhaa?

Quão santos e sacros sois vós afinal?
Nada vos motiva senão o ódio e a ganância,
Odeiam-nos e querem ser como eles.
Querem tanto a carne e o sangue como eles.
Oh, querem tanta carne.
Se pudessem, chacinavam-nos a todos e montavam um talho
Mas depois, a carne está podre, quem a ia querer?
E depois deprimiam, os coitados,
precisam de se integrar na sua desintegração,
mariquice, é o que é.

E agora, morremos todos, querem ver?
Uuuh, Julgamento final...
Não era isso que queriam?
Vá, façam lá esses sorrisinhos malandros e caras de "I told you".
Que interessa?
Também vão arder!
Ha-Ha!

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

Le morts de Notre Dame de Paris

A monotonia dança, envergonhada e macambúzia, tomada pelo braço embrutecido dum qualquer maestro mascarado, enquanto ele agita, de igual monótono modo, a sua batuta, regendo uma orquestra de sofredores esquizofrénicos, violadores masoquistas e inquisidores apicultores. Entoam, muito sincromáticamente, uma ode a tudo de que lhe foi tirado. A morte, a vida e a confotável consciência. Tiveram pátria e família, apegaram-se ao mundo, e subitamente, tudo lhes tinha sido aspirado, estavam nus, doentes, e dementes.
Gritaram e gritaram, até que esses gritos ecoassem algo que os apaziguasse. Depois choraram, e esperaram que das lágrimas se fizesse um rio que desaguasse num qualquer mar de nostalgia melancólica. Deixaram-se levar pelos delírios, até que se encontraram, ali, naquele antro magestoso, aterrorizante, frio e escuro. A acústica fazia parecer o simples cair de uma pinga uma tempestade, e o vento que esbatia uma voz de um qualquer Deus ancestral.
Ali, só encontraram mais terror. Os gritos e prantos angustiosos só lhes esvaziavam a alma e o silêncio cavernoso parecia devorar tudo o que de humanos lhes restava. E subitamente, com o cair de uma pedra, gritaram todo o que lhes saía, e desses gritos saíram cantos, de um coro enraivecido e sobrenaturalmente assustador. Reminescia, em quem ouvia, tudo o que de mais podre e vil existe: o ódio, a carnalidade, o medo. Dizia-se que quem entrava na sua catedral enlouquecia, e se tornava um deles. Até as gárgulas pareciam entoar o canto macabro.
Escutava-se a morte à porta daquele edifício, era linda, a coisa mais bela e majestosa, nela ardia o desejo e a negação, o prazer e a angústia, dor e mais dor e mais dor, o terror gelado, e por fim, a vida. Tornaram-se transcendentes à sua consciência.
Mortos, prepetuaram a sua morte naquela sinfonia.
Eu tenho de cair para me levantar, e tenho de estar de pé para cair. Quer rasteje quer ande a vida toda a pé, vai dar ao mesmo, nunca soube realmente o que era levantar-me ou o que era cair.

Agora já quero asas.

sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Cambada de leprosos, estão a cair aos pedaços.
As vossas entranhas, a vossa carne,
o sangue que é vosso e dos vossos,
gorduroso, pastoso, preguiçoso e lânguido.
Apodrecem e não morrem.
Tão vazia é vossa alma,
que nem vale a pena devolve-la ao mundo.
Dão logo esse corpo, reles e molengo,
e dão-lo a consumir, por entre vós,
pela peste, pela lepra,
pelos vermes que rastejam na vossa existência,
e pelos demais que vos querem comer.
Canibais moribundos e necrófagos imundos,
Assim é a vida e assim viveis.
Ide em paz.
A musa é a arte que inspira à criação da arte. Sem ela, não há arte nem criador. A musa necessita de ser criada, concebida, ou pelo menos admirada. A musa é o puro abstracto que apenas se concretiza no sujeito, é a beleza, para a obra bela de um criador inspirado, é o ódio para aquele que odeia, é a dor para o que sofre. Para haver arte, há que haver sentimento. Quando este fluxo for interrompido, quer por falta de musa ou falta de arte, a humanidade estagnará, pois ficará preenchida de tédio e vazio.

Deixa que te admire, deixa que te sinta, deixa-me viver e ser humano enquanto possa. Deixa que te crie tudo e nunca te deixe ver, deixa que eu sofra, deixa que eu deseje, e nada mais.

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Estou nu, despojado de tudo.
Tiraram-me os bens e as inutilidades
Os amigos, a família, esses outros.
Amor, ódios, culpa, ressentimentos
e todos os demais pensamentos
já não os conheço.
Aos sonhos e aos desejos,
deixo-os com o sentimento,
de que em algum momento,
tenham sido mais que isso.

Agora vou renascer,
viver de novo,
e acordar com esta panca
de que quero outra vida.
O caminho do progresso é a reconstrução de paradigmas. Este blog está preso a um paradigma, como tal, é preciso acabar com todos os padrões, valores e demais associados, para que progrida.

Aqui vai:

Tu és cócó.

Ciclo da vida

A vitela comia erva. E engolia, e mastigava, e ruminava, e voltava a mastigar, a ruminar. E assim se fazia a sua vida. Até que um dia chegou lá um belo dum gafanhoto e disse: "Ah, e tal, eu e mais uns quantos amigos vamos-te comer a erva toda." E ela "Ah, tá bem". E eles vieram, e com eles trouxeram a peste, a fome, algumas hemorróidas, e uma comichão na orelha do Sr. Jaquim, que afinal de contas era só um piolho afogado em sarro. E assim, as vacas ficaram sem erva, os homens ficaram sem leite, e os chineses continuaram a ser mais que as mães. Com tamanha tragédia, a vitela foi pastar para outro lado, onde conheceu um ganda boi. Apaixonaram-se e ela ficou prenha. (Isto com bicharada costuma ser bastante imediato.) Um dia, ia o boi a voltar a casa depois de um dia stressante de trabalho e conforme ia a atravessar para ter com a sua amada veio um camião. Ela bem gritou "Oh boi, sai da estrada!" mas em vão. Despedaçado o coração da vitela (agora vaca), fizeram-se iscas.
Bem boas que estavam.

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Sapiência

"Os pelos na orelha não só a maneira da natureza te dizer que não deves ouvir os outros"

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Egeiro

Ele acordou, era mais um dia, igual a tantos outros. Espreguiçou-se mecanicamente num bocejo preguiçoso. Levantou-se, ainda a coçar a virilha, e abriu as cortinas. Estava um dia cinzento, chuvoso, carrancudo. Cumpriu todos os ritos matinais, e fez-se a mais um dia de ócio. Ele era mais um daqueles estorvos sociais: não trabalhava, vivia da herança duma tia rica, era, em suma, um parasita.
Mas esta manhã fora estranha, ou pelo menos, assim lhe parecera. O cão do vizinho não lhe ladrara nem correra atrás dele. Aliás, nem notara a sua presença, ficara de orelhas hirtas a escutar o vento. A pastelaria onde ia comer a sua tão adorada bola de berlim, estava fechada, com um daqueles letreiros de volto já que duram para a manhã toda. No entanto, lá teve de se resignar e seguir com as inutilidades da sua rotina. Sentou-se no seu banquinho de jardim, e pôs-se a mirar as árvores, as mesmas árvores de sempre sob o mesmo céu de sempre, no mesmo jardim de sempre, a sua vida tinha sido aquilo.
Conforme percorria as ruas daquela cidade, uma cidade cinzenta, suja, apinhada de gente sem vontade nem destino, apercebia-se do quão acomodado estava e do vazio que aquelas multidões lhe provocavam. Quanto mais deambulava, mais se apercebia de que era apenas mais um, uma coisa corriqueira sem identidade que fazia número e nada mais. Via nas pessoas os olhares distantes, perdidos em devaneios e sonhos de uma vida não vivida. Via a indiferença com que a gente se dava, os falsos afectos, os sorrisos cínicos. E nessa maré de gente, via-se a si: só, desorientado, angustiado sem saber bem de quê ou de quem era a culpa. Não encontrava ponta de significado ou sentido no meio daquilo tudo. A vida daquelas gentes, para ele, não se assemelhava a nada mais do que cotão, um aglomerado de lixos e futilidades emaranhadas que andavam ao sabor do vento.
Pelo caminho desse seu passeio matinal (que já pouco matinal era, o sol ia alto e as cozinhas dos restaurantes já fervilhavam de cheiros e fumos) parou na Igreja. Não que ele fosse muito crente, mas achava o monumento bonito e o fascínio pela arquitectura prendia-o sempre naquele local. Especou-se ali, e maravilhou-se: com a estética, com o trabalho, e com a fé que motivara tudo o mais. Desejara acreditar, desejara ser um cordeiro que seguisse o rebanho inocentemente até ser abatido pelo seu pastor.
Um forte odor de carne a grelhar invadiu-o e fê-lo salivar e evadir-se de todo aquele remoer ruminante de dissertações. Um nó torceu-lhe o estômago e, pouco relutantemente, lá sucumbiu aos prazeres alimentícios. Espetaram-lhe um bife essanguetado na frente e ele devorou-o, qual besta faminta e primitiva. O sabor ferroso do sangue do bovino anónimo ficara-lhe no paladar pela tarde fora.
Fez-se tarde, voltou para casa cheio de vazio. Olhou para a cama. Os lençóis estavam manchados de sangue. Neles, jazia o seu corpo, morto, inanimado e com uma bala cravada nos miolos.
Despertara, o dia voltara a ser o mesmo.

domingo, 29 de Novembro de 2009

É tão giro indrominar isto de coisinhas para que as pessoas não vejam os posts decentes.
"nhé..."

Ego, oh ego.

Finjo que sou complexo o suficiente para o poder fingir.

Dissertações/ Dissecações - IV

O peso da consciência,
é o da cabeça oca
sobre a mão aborrecida.
A inquietude
é o formigueiro.

intemporalidades

Vou morrer anteontem,
porque vivo a desejar o ontem
enquanto nasço para amanhã
sem saber o que amanhã é.

Dissertações/ Dissecações - III

Queria parar o tempo para me separar dele.
As ansiedades e memórias iam-se.
Eu e tu também...

yay...

Dissertações/ Dissecações - II

Definição de paixão platónica:
Quero-te, oh vida!

Silogismo.

A luz projecta sombras.
Sombras são escuridão.
Logo, a luz projecta a escuridão.
"Não há mal sem bem"

Dissertações/ Dissecações - I

Não fazer sentido não é possível pois há que perceber que não faz sentido.

E eis que o berbequim morreu a furar a parede de diamante.

Parem de me invadir, todos!
Não quero ideias, não quero palavras,
(sou um hipócrita por usar ambas mesmo agora...)
não quero nada nem ninguém.
Quero ser sem os outros.
Quero sentir a genuinidade do ser humano,
longe das violações do meu intelecto e do meu ser.
Quero atirar a máscara para o chão e estilhaçá-la,
Ver todos os seus pedaços a espalharem-se pelo chão caoticamente...
Mostrar-me: podre, nojento, feliz e impenetrável.
Chocar e apaziguar.
Quero estar exposto, nu e frágil,
para que deixem de me violar.

Tempo

À espiral do tempo,
não se lhe avista o fim.
não estica nem encolhe,
não torce nem roda,
apenas fluí.

O presente cai no abismo,
e o passado, já está caído
e esquecido
no mais ínfimo ponto
que tão pouco se diferencia
de coisa nenhuma.

Acorrentado e arrastado,
lá há de ir o futuro,
que quando for presente,
se há de erguer e andar.
E quando for passado,
que tão bem se deixa levar,
escorrerá lá para o furo,
que não se vê mas se sente,
o do vazio absoluto
e do nada supremo.

Morre, corre, escorre,
esguio foge e guia
o nada, para a vida.

Renasce das cinzas.

Da entropia do vórtice,
para a calma do plano,
espaço e tempo explodem,
matando, ceifando, engolindo,
a espiral, o nada, o abismo.

Eternidade, porque esperas?

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Uma luz no escuro (Preto & Branco)

Ora, decidi aventurar-me na fotografia.
"Morning, oh dreadful dawn, spread your pale dim light" - Dissection - Retribution, Storm of the lights bane

(A primeira foi no palácio do Buçaco e a segunda em Gent, na Bélgica)

Este post enquadra-se no desafio Preto & Branco da Fábrica de Letras

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Asdrubal, o da Enxada.

O Asdrúbal era um bicho. Mais concretamente, um homem, que vivia na aldeia de Enxada-àbaixo. O Asdrúbal era carpinteiro, ferreiro e carroceiro. Curiosamente, as carroças são feitas de madeira e ferro. No entanto, dado o seu estrabismo, todas as carroças do Asdrúbal tinham rodas ovais. Precisava também, obviamente, da burra da sogra, que lhe dava a loja para guardar a carroça, e da mula da tia Gestrudes, que tinha dois potros que puxavam a carroça.
O Asdrúbal vivia numa moradia e era um bom pai de família, com 7 catraios e catraias, bigode, e barriga de tinto. (Desculpem a redondância, a da barriga isto é.) Tinha uma mulher, a Arlinda, que era boa cozinheira, lavadeira, e parideira, e pouco mais dela o Asdrúbal sabia, porque também pouco mais lhe interessava.
Ao lado d'Enxada-àbaixo, ficava Enxada-àcima, e ,chegado Agosto, era altura da romaria anual nas duas Enxadas. Ora, como em quaisquer aldeias vizinhas que se prezem, os Enxadenses de baixo não gostavam dos Enxadenses de cima, e vice-versa. Acontece que a Arlinda, mulher do Asdrúbal, era de Enxada-àcima, mas isso não fazia diferença nenhuma, pois sendo a sogra do Asdrúbal de Enxada-àcima, mais um motivo para não gostar. De há um tempo para cá, a noite do arraial nas duas aldeias (que, por tradição e adoração ao mesmo santo, era no mesmo dia.) consistia não em ver quem tinha o melhor fogo, mas quem sabotava mais e melhor. Ora o Asdrúbal era o maior da sua aldeia, e portanto, ficou encarregue ele de toda a sabotagem.
Aconteceu que, nessa dita noite, o catraio mais velho do Asdrúbal, o Zé, fazia os seus 18 anos, pelo que o Asdrúbal foi pagar uns copos à mocidade, e a ele mesmo.
Mas, bêbado ou não, o Asdrúbal e os seus compinchas eram homens de palavra e lá foram ao dever, na sua carroça, aos solavancos, que ritmadamente acompanhavam os soluços do tinto da tasca do tio António. Desmontaram o que ia ser o arraial de Enxada-àcima e empacotaram tudo para a carroça do Asdrúbal. Pela estrada, à volta, encontraram também a malta d'Enxada-àcima com o arraial dos rivais.
Saltou tudo das carroças e resolveram o problema da melhor maneira que sabiam: à porrada. Felizmente, tanto uns como os outros estavam bebidos e em vez de ser enxada acima, enxada abaixo, enxada na cabeça, enxada nos rins, nem se acertavam e pareciam estar a fazer uma dança qualquer ridícula de capoeira (simplesmente pareciam galinhas). Acidentalmente, começou tudo a acender o fogo-de-artifício, e, numa clareira no meio do mato, lá se fez o arraial.
Foi o mais bonito de que as gentes das duas aldeias se lembram, e, com o coração mole e tocado daquilo tudo, ou simplesmente com a bebedeira, acabaram as duas aldeias por fazer o bailarico junto confraternizando e rindo como irmãos (ou irmões).
No dia seguinte andaram à batatada, cebolada, nabiçada, etc. Tudo voltara ao normal.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Havia um tempo em que começava a escrever e me fluíam as palavras, como o sangue me corre.
Havia horas, em que fervilhava de ideias, e depois escrevia ordenada e sincronizadamente.
Agora, que quero explodir de tudo,
bloqueio.
Resta o silêncio, ele que fale.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Piano que tocas baixinho,
que foras tu,
carne de mogno cru,
sem teu pianista sozinho?

Sinta a alma
e toque o instrumento.
quebre-se a calma
no melodioso tormento

Sentissem as teclas macias,
o que os rudes dedos tocam
que p'ra sempre me soarias
ao que das almas choram.

Medo do escuro

Iam juntos, de mão dada, aéreos e compenetrados um no outro. Caminhavam junto a um bosque, rindo e corando como se nada mais houvesse senão a inocência e leviandade daquele momento, e gozavam de um pôr-do-sol que se espalhava pelas nuvens adentro. Um corvo passara a voar, prenunciando a noite, e pousara numa poça de água debicando e mirando-se no reflexo. Na inglória ave nada mais se via senão as asas da liberdade que ironicamente carregavam o fado. Chegaram a uma encruzilhada, o deleitoso pôr-do-sol tinha dado lugar ao tenebroso crepúsculo de sombras falsas e incompletas. Abraçaram-se, beijaram-se, e olharam-se. Olharam-se de tal desejo que pareciam querer, mais do que sucumbir ao desejo, eterniza-lo num qualquer sonho impossível e imortal.
- Não me deixes, por favor... - Dizia ela apertando as suas mãos fortes.
-Porquê?
-Porque sim... tenho medo.
-Medo? porque hás de ter medo?
-Oh, não me olhes assim... porque sim, pronto.
-Anda lá, fala comigo...
-Tenho medo de ficar sozinha...
-Sozinha? não vais ficar sozinha, eu volto, como sempre volto, nunca te deixo, nunca!
-Não é isso... tenho medo de estar sozinha, tenho medo de estar comigo...
-Hum?
-Tenho medo do que me possa fazer, de acordar de tudo isto...
-Acordar de quê? isto é real.
-Mas não parece, é tudo demasiado simples, demasiado perfeito para ser real. Não estou habituada assim a estar feliz, assim leve, sei lá... não acho que seja suposto, e tenho medo de me aperceber disso. Sozinha, no escuro.
-Oh, isso são só inseguranças, vais ver que passa.
-Ohh... sei lá.
-Olha para mim, vais ficar bem.
E com um beijo na testa, ele despediu-se dela. Conforme ela atravessava um camião passara, dilacerando-a no pára-choques. Ele olhou para trás, e petrificou, mortificado, prostrado no chão. Um corvo voava nos céus, e colhera a sua alma. Levara-a para a luz que restava do crepúsculo, para o horizonte. E ele ali ficara, na escuridão, perdido, amedrontado, acorrentado à saudade, amorfo. Percebera o medo dela. Não o de ficar sem companhia, mas o de ficar consigo. As trevas tomaram conta dele, apagara-se na sombra...

(Para a Fábrica de Letras, "Preto & Branco")