quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Egeiro

Ele acordou, era mais um dia, igual a tantos outros. Espreguiçou-se mecanicamente num bocejo preguiçoso. Levantou-se, ainda a coçar a virilha, e abriu as cortinas. Estava um dia cinzento, chuvoso, carrancudo. Cumpriu todos os ritos matinais, e fez-se a mais um dia de ócio. Ele era mais um daqueles estorvos sociais: não trabalhava, vivia da herança duma tia rica, era, em suma, um parasita.
Mas esta manhã fora estranha, ou pelo menos, assim lhe parecera. O cão do vizinho não lhe ladrara nem correra atrás dele. Aliás, nem notara a sua presença, ficara de orelhas hirtas a escutar o vento. A pastelaria onde ia comer a sua tão adorada bola de berlim, estava fechada, com um daqueles letreiros de volto já que duram para a manhã toda. No entanto, lá teve de se resignar e seguir com as inutilidades da sua rotina. Sentou-se no seu banquinho de jardim, e pôs-se a mirar as árvores, as mesmas árvores de sempre sob o mesmo céu de sempre, no mesmo jardim de sempre, a sua vida tinha sido aquilo.
Conforme percorria as ruas daquela cidade, uma cidade cinzenta, suja, apinhada de gente sem vontade nem destino, apercebia-se do quão acomodado estava e do vazio que aquelas multidões lhe provocavam. Quanto mais deambulava, mais se apercebia de que era apenas mais um, uma coisa corriqueira sem identidade que fazia número e nada mais. Via nas pessoas os olhares distantes, perdidos em devaneios e sonhos de uma vida não vivida. Via a indiferença com que a gente se dava, os falsos afectos, os sorrisos cínicos. E nessa maré de gente, via-se a si: só, desorientado, angustiado sem saber bem de quê ou de quem era a culpa. Não encontrava ponta de significado ou sentido no meio daquilo tudo. A vida daquelas gentes, para ele, não se assemelhava a nada mais do que cotão, um aglomerado de lixos e futilidades emaranhadas que andavam ao sabor do vento.
Pelo caminho desse seu passeio matinal (que já pouco matinal era, o sol ia alto e as cozinhas dos restaurantes já fervilhavam de cheiros e fumos) parou na Igreja. Não que ele fosse muito crente, mas achava o monumento bonito e o fascínio pela arquitectura prendia-o sempre naquele local. Especou-se ali, e maravilhou-se: com a estética, com o trabalho, e com a fé que motivara tudo o mais. Desejara acreditar, desejara ser um cordeiro que seguisse o rebanho inocentemente até ser abatido pelo seu pastor.
Um forte odor de carne a grelhar invadiu-o e fê-lo salivar e evadir-se de todo aquele remoer ruminante de dissertações. Um nó torceu-lhe o estômago e, pouco relutantemente, lá sucumbiu aos prazeres alimentícios. Espetaram-lhe um bife essanguetado na frente e ele devorou-o, qual besta faminta e primitiva. O sabor ferroso do sangue do bovino anónimo ficara-lhe no paladar pela tarde fora.
Fez-se tarde, voltou para casa cheio de vazio. Olhou para a cama. Os lençóis estavam manchados de sangue. Neles, jazia o seu corpo, morto, inanimado e com uma bala cravada nos miolos.
Despertara, o dia voltara a ser o mesmo.

1 comentário:

Ana Luísa Pereira disse...

O Peixoto não pesca nada, senão também este estava no site da Coca-Cola :')