Piano que tocas baixinho,
que foras tu,
carne de mogno cru,
sem teu pianista sozinho?
Sinta a alma
e toque o instrumento.
quebre-se a calma
no melodioso tormento
Sentissem as teclas macias,
o que os rudes dedos tocam
que p'ra sempre me soarias
ao que das almas choram.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Medo do escuro
Iam juntos, de mão dada, aéreos e compenetrados um no outro. Caminhavam junto a um bosque, rindo e corando como se nada mais houvesse senão a inocência e leviandade daquele momento, e gozavam de um pôr-do-sol que se espalhava pelas nuvens adentro. Um corvo passara a voar, prenunciando a noite, e pousara numa poça de água debicando e mirando-se no reflexo. Na inglória ave nada mais se via senão as asas da liberdade que ironicamente carregavam o fado. Chegaram a uma encruzilhada, o deleitoso pôr-do-sol tinha dado lugar ao tenebroso crepúsculo de sombras falsas e incompletas. Abraçaram-se, beijaram-se, e olharam-se. Olharam-se de tal desejo que pareciam querer, mais do que sucumbir ao desejo, eterniza-lo num qualquer sonho impossível e imortal.
- Não me deixes, por favor... - Dizia ela apertando as suas mãos fortes.
-Porquê?
-Porque sim... tenho medo.
-Medo? porque hás de ter medo?
-Oh, não me olhes assim... porque sim, pronto.
-Anda lá, fala comigo...
-Tenho medo de ficar sozinha...
-Sozinha? não vais ficar sozinha, eu volto, como sempre volto, nunca te deixo, nunca!
-Não é isso... tenho medo de estar sozinha, tenho medo de estar comigo...
-Hum?
-Tenho medo do que me possa fazer, de acordar de tudo isto...
-Acordar de quê? isto é real.
-Mas não parece, é tudo demasiado simples, demasiado perfeito para ser real. Não estou habituada assim a estar feliz, assim leve, sei lá... não acho que seja suposto, e tenho medo de me aperceber disso. Sozinha, no escuro.
-Oh, isso são só inseguranças, vais ver que passa.-Porquê?
-Porque sim... tenho medo.
-Medo? porque hás de ter medo?
-Oh, não me olhes assim... porque sim, pronto.
-Anda lá, fala comigo...
-Tenho medo de ficar sozinha...
-Sozinha? não vais ficar sozinha, eu volto, como sempre volto, nunca te deixo, nunca!
-Não é isso... tenho medo de estar sozinha, tenho medo de estar comigo...
-Hum?
-Tenho medo do que me possa fazer, de acordar de tudo isto...
-Acordar de quê? isto é real.
-Mas não parece, é tudo demasiado simples, demasiado perfeito para ser real. Não estou habituada assim a estar feliz, assim leve, sei lá... não acho que seja suposto, e tenho medo de me aperceber disso. Sozinha, no escuro.
-Ohh... sei lá.
-Olha para mim, vais ficar bem.
E com um beijo na testa, ele despediu-se dela. Conforme ela atravessava um camião passara, dilacerando-a no pára-choques. Ele olhou para trás, e petrificou, mortificado, prostrado no chão. Um corvo voava nos céus, e colhera a sua alma. Levara-a para a luz que restava do crepúsculo, para o horizonte. E ele ali ficara, na escuridão, perdido, amedrontado, acorrentado à saudade, amorfo. Percebera o medo dela. Não o de ficar sem companhia, mas o de ficar consigo. As trevas tomaram conta dele, apagara-se na sombra...
(Para a Fábrica de Letras, "Preto & Branco")
(Para a Fábrica de Letras, "Preto & Branco")
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O medo fecha-se em mim,
ou sou eu quem me sela nele?
Escondo este meu ser ruim
na armadura d'eriça pele.
Veias asquerosas e palpitantes,
escorre e esvaia o sangue em vós,
Corre a adrenalina a jusante.
Gritos surdos de quebra-noz.
Bate, mói e esfola,
vai e vem como a mola,
a angústia, o sangue e a cela
que se fecha dentro dela.
ou sou eu quem me sela nele?
Escondo este meu ser ruim
na armadura d'eriça pele.
Veias asquerosas e palpitantes,
escorre e esvaia o sangue em vós,
Corre a adrenalina a jusante.
Gritos surdos de quebra-noz.
Bate, mói e esfola,
vai e vem como a mola,
a angústia, o sangue e a cela
que se fecha dentro dela.
domingo, 15 de novembro de 2009
Neologismo
O neologismo,
é desculpa duma mente
criativa, mas estúpida,
que nem sabe o que sente
e quer ser é vendida.
O neologismo,
é fofinho e querida
e deveras bem parecido
enquanto é fresco e viçoso
e se usa com gozo.
O neologismo,
é arma e floreado,
sem sequer ter feriado,
tanto se dá como se vende,
e pouca gente o entende.
é desculpa duma mente
criativa, mas estúpida,
que nem sabe o que sente
e quer ser é vendida.
O neologismo,
é fofinho e querida
e deveras bem parecido
enquanto é fresco e viçoso
e se usa com gozo.
O neologismo,
é arma e floreado,
sem sequer ter feriado,
tanto se dá como se vende,
e pouca gente o entende.
sábado, 14 de novembro de 2009
bruit nocturne
Ruídos e mais ruídos, a entrarem, encavalintado-se uns nos outros reclamando um lugar, apenas querem ser ouvidos. E no entanto, por serem tantos e tão indistintos, nada passam de interferência. Apenas aqueles que lá estavam, já de muito tempo, prevalecem e continuam a ser ouvidos ditando uma qualquer-coisa-cracia que insiste em comandar o sujeito. Não é o silêncio que incomoda, são os ruídos demasiado ténues para se distinguirem quer do som quer do silêncio, as malditas indefinições.
E porém, por entre os ruídos nocturnos, parece ouvir-se uma orquestra silênciosa de medo, que nos invade e nos cobre de angústia. Queremos tanto ouvir, um estalido, um abrir duma porta, um ligar duma luz, algo que nos distraia e acalme e mande os malditos ruídos embora. No entanto, a adrenalina palpitante da estática cresce, e já não a conseguimos largar, viciamos no medo, na angústia. Mais do que queremos a calma queremos deseja-la, quer venha ou não...
E porém, por entre os ruídos nocturnos, parece ouvir-se uma orquestra silênciosa de medo, que nos invade e nos cobre de angústia. Queremos tanto ouvir, um estalido, um abrir duma porta, um ligar duma luz, algo que nos distraia e acalme e mande os malditos ruídos embora. No entanto, a adrenalina palpitante da estática cresce, e já não a conseguimos largar, viciamos no medo, na angústia. Mais do que queremos a calma queremos deseja-la, quer venha ou não...
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
La Masquerade
Ele era feio, mas feio! Aquela cara horrenda só não se parecia com um animal, porque não há animal assim tão feio. Brotava nojo por cada protuberância e cova do seu rosto, e eram muitas. Qualquer alma bem intencionada, nauseava, só de olhar para ele. Ele não gostava de si, os outros não gostavam dele. Por mais coração puro ou alma inspirada que tivesse, era horripilante. Era um monstro.
"Matem-no!"
"Queimem-no!"
"Esfolem-no!"
As pobres criaturas tinham medo.
Ataram-no a um poste, de cara tapada e bem trajado, regaram-no com azeite, e queimaram-no. Oh, como aquela gente se maravilhava com o fogo. Trazia-lhes o inferno para mais perto deles afinal. Ouviram-se gritos de horror enquanto o seu corpo se contorcia e a sua cara derretia. Eis que, no último momento, ele se ergue como um anjo e expande as suas asas tapando o sol àquela gentinha acabrunhada. Fome e pestilência foi o que se seguiu, com direito a todas as pragas. Foi-lhes dada a imortalidade, e assim, podres, moribundos e decompostos viveram a sua vida eterna. Eram feios, podres e horrendos.
"Queimem-no!"
"Esfolem-no!"
As pobres criaturas tinham medo.
Ataram-no a um poste, de cara tapada e bem trajado, regaram-no com azeite, e queimaram-no. Oh, como aquela gente se maravilhava com o fogo. Trazia-lhes o inferno para mais perto deles afinal. Ouviram-se gritos de horror enquanto o seu corpo se contorcia e a sua cara derretia. Eis que, no último momento, ele se ergue como um anjo e expande as suas asas tapando o sol àquela gentinha acabrunhada. Fome e pestilência foi o que se seguiu, com direito a todas as pragas. Foi-lhes dada a imortalidade, e assim, podres, moribundos e decompostos viveram a sua vida eterna. Eram feios, podres e horrendos.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Auto-desanálise
Sou uma fraude.
Em tudo aquilo que mostro ser, não sou.
Tudo aquilo que digo ser, é mentira.
Aquilo que penso que sou e que digo não ser, é uma falsidade.
Sou nada, mas não se pode ser nada e dizer que se é nada.
Nada é nada e não existe, portanto não é.
Podia dizer que sou um infinitésimal, afinal sou quase nada.
Mas também não sou um número.
O que podia ser,
o que quero ser,
o que sonho ser,
o que devia ser,
é tudo ilusório, e enormérrimo ao pé do que sou.
Sou humano, sou reles, sou podre.
Mas tenho a presunção de dizer que sou como vós:
Reles, miseráveis, podres.
(O que me faz pior que vós, suponho)
Eu escrevo e as letras não são minhas.
As palavras não são minhas.
Meu, é só o pensamento, e está debilitado.
Sou um ultraje, uma afronta.
Por almejar ser o que não posso ser,
por ser o que não devia ser,
por escrever com palavras de outros,
por seguir valores de outros, ideias de outros,
e mesmo assim me achar original.
Sou um momento, um instante, o agora.
Já me fui, mas estou cá outra vez, e outra.
Serei e fui finito, mas sou infinito,
pois da infinidade do instante, não me interrompo ou fragmento.
Sinto?
Penso?
Existo?
Importa?
Em tudo aquilo que mostro ser, não sou.
Tudo aquilo que digo ser, é mentira.
Aquilo que penso que sou e que digo não ser, é uma falsidade.
Sou nada, mas não se pode ser nada e dizer que se é nada.
Nada é nada e não existe, portanto não é.
Podia dizer que sou um infinitésimal, afinal sou quase nada.
Mas também não sou um número.
O que podia ser,
o que quero ser,
o que sonho ser,
o que devia ser,
é tudo ilusório, e enormérrimo ao pé do que sou.
Sou humano, sou reles, sou podre.
Mas tenho a presunção de dizer que sou como vós:
Reles, miseráveis, podres.
(O que me faz pior que vós, suponho)
Eu escrevo e as letras não são minhas.
As palavras não são minhas.
Meu, é só o pensamento, e está debilitado.
Sou um ultraje, uma afronta.
Por almejar ser o que não posso ser,
por ser o que não devia ser,
por escrever com palavras de outros,
por seguir valores de outros, ideias de outros,
e mesmo assim me achar original.
Sou um momento, um instante, o agora.
Já me fui, mas estou cá outra vez, e outra.
Serei e fui finito, mas sou infinito,
pois da infinidade do instante, não me interrompo ou fragmento.
Sinto?
Penso?
Existo?
Importa?
domingo, 1 de novembro de 2009
Chuva
Abençoai a chuva pois vos deslava dos vossos pecados, almas conspurcadas e imundas!
E também rega as plantinhas.
E dá para fazer "chap-chap".
Está a chover
E também rega as plantinhas.
E dá para fazer "chap-chap".
Está a chover
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Manifestum!
O cagalhão esperneia,
Não corre nem anda.
O cagalhão não é produto da razão,
é do traseiro.
Toda a gente tem nojo do cagalhão,
mas que ele é preciso, lá isso é.
O cagalhão não é intelectual,
nem humorista, ou cronista,
é merda.
Se o cagalhão cheira mal,
é dos vossos narizes,
Se o cagalhão tem mau aspecto,
é dos vossos olhos.
O cagalhão não sente nem pensa,
é bosta e flutua.
O cagalhão não morre,
o cagalhão seca.
Não corre nem anda.
O cagalhão não é produto da razão,
é do traseiro.
Toda a gente tem nojo do cagalhão,
mas que ele é preciso, lá isso é.
O cagalhão não é intelectual,
nem humorista, ou cronista,
é merda.
Se o cagalhão cheira mal,
é dos vossos narizes,
Se o cagalhão tem mau aspecto,
é dos vossos olhos.
O cagalhão não sente nem pensa,
é bosta e flutua.
O cagalhão não morre,
o cagalhão seca.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Winterness
Carme(sim)
Pedaços de carne,
Sangrenta,
Podre,
Reles,
Fétida.
Corpos lânguidos,
prostrados no chão
de braços estendidos
pedindo uma mão.
"Oh de cima,
tu do alto,
Ouves?
Os gritos pavorosos,
Os risos frenéticos,
Os choros histéricos?
E tu, de cima,
do mais alto céu
e digno trono,
vês?
A carne a ser esbatida,
o corpo rendido
a alma vendida?
E tu prostrado e sentado,
sentes?
A paz, a guerra,
o amor, o ódio,
a tristeza, a miséria,
a alegria contagiante?"
Silêncio...
Carne exangue,
Corpo exausto,
vazio,
morto.
Sangrenta,
Podre,
Reles,
Fétida.
Corpos lânguidos,
prostrados no chão
de braços estendidos
pedindo uma mão.
"Oh de cima,
tu do alto,
Ouves?
Os gritos pavorosos,
Os risos frenéticos,
Os choros histéricos?
E tu, de cima,
do mais alto céu
e digno trono,
vês?
A carne a ser esbatida,
o corpo rendido
a alma vendida?
E tu prostrado e sentado,
sentes?
A paz, a guerra,
o amor, o ódio,
a tristeza, a miséria,
a alegria contagiante?"
Silêncio...
Carne exangue,
Corpo exausto,
vazio,
morto.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Dead End
Caí. Não me levantei, rastejei até ao fundo do corredor. Lá, estava uma porta, velha e carunchosa, de uma madeira maciça e escura. Parecia dar para uma catacumba ou algo parecido, das bordas vinha um ar frio e fétido e a porta era baixa com uma janelinha gradeada. Tinha o trinco partido e a maçaneta pingada e escorregadia. Provavelmente alguém lá passara, não há muito tempo. Apoiado num braço, com uma dor latente no pulso que me parecia querer rasgar o braço ao meio, lá fiz por chegar à maçaneta e abri a porta. Empurrei-a num ranger tenebroso e vi umas escadas, em caracol, esguias e mal iluminadas. Arrastei-me de novo, com o peito comprimido contra o chão. As escadas eram de um calcário gasto e deslizante, provavelmente do uso e da água que lá passara. Empurrei-me com dor, o peito dorido dos solavancos no chão e os pulmões sofridos do ar húmido e gélido que se respirava.
Cheguei ao fim. Havia uma outra porta. Esta, ao contrário da anterior era toda pomposa e bem decorada, de talha dourada e maçaneta repleta de joalharia. Metade de ela era vidrada, de um vidro fumado espelhante e elegante, a outra, a metade de baixo, ostentava um belo brasão que parecia remontar talvez à mais alta aristocracia do século XV. Encontrei a maçaneta e rodei, nada aconteceu, estava trancada. Ali fiquei, sem força para voltar onde estava, sem vontade nem esperança de derrubar aquela barreira. Morri, apodreci, desapareci. A porta, essa, permaneceu fechada, quem sabe se algum dia esteve aberta...
Cheguei ao fim. Havia uma outra porta. Esta, ao contrário da anterior era toda pomposa e bem decorada, de talha dourada e maçaneta repleta de joalharia. Metade de ela era vidrada, de um vidro fumado espelhante e elegante, a outra, a metade de baixo, ostentava um belo brasão que parecia remontar talvez à mais alta aristocracia do século XV. Encontrei a maçaneta e rodei, nada aconteceu, estava trancada. Ali fiquei, sem força para voltar onde estava, sem vontade nem esperança de derrubar aquela barreira. Morri, apodreci, desapareci. A porta, essa, permaneceu fechada, quem sabe se algum dia esteve aberta...
terça-feira, 20 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
Ode ao Zé, poema pimba
O zé,
Era mais um sujeito,
igual a muitos outros
Sem graça ou trejeito.
Era um bonacheirinho
de suiça despenteada
e cara de vinho.
De tintol na mão
e boina na testa,
camb'leava no chão,
Vindo da festa.
Desgraçada da Maria,
e pobre do zé,
conforme já ia,
nem se via de pé
Pêlo na orelha,
migalhas no bigode.
Assim o via na quelha,
quem encontrava Zé Pagode.
Era mais um sujeito,
igual a muitos outros
Sem graça ou trejeito.
Era um bonacheirinho
de suiça despenteada
e cara de vinho.
De tintol na mão
e boina na testa,
camb'leava no chão,
Vindo da festa.
Desgraçada da Maria,
e pobre do zé,
conforme já ia,
nem se via de pé
Pêlo na orelha,
migalhas no bigode.
Assim o via na quelha,
quem encontrava Zé Pagode.
domingo, 11 de outubro de 2009
IV - A Metamorfose
E Eis que o sol se ergueu para iluminar a Terra e todos aqueles que eram dignos de a habitar. Pois se eram dignos de habitar a Terra e receber o calor majestoso do Sol, que mais mereceriam eles? Com a ascensão do bicharoco Homem, surgiu também a metafísica para lhe atormentar a alma, virou-se para os céus de braços abertos à espera de respostas. É de facto um cliché, ainda hoje fazemos isso, que raio evoluímos nós? A nossa alma, um recipiente à espera de ser cheio, é muito espelhada e inconstante. Por vezes, o mínimo lampejo de luz chega para alumiar esta alma e enche-la de qualquer coisa. Talvez por isso nos viremos para o céu iluminado e majestoso, sem nos depararmos que estamos simplesmente a tentar olhar para nós, a tentar projeccionar o nosso ego bem alto para todos o verem.
E assim, com a mesma facilidade com que um padeiro cria um pão ou um filho com a vizinha, o homem criou Deus à sua imagem e semelhança e todas as respostas foram dadas. Afinal, que interessa se a resposta é falsa? No fim, é tudo o mesmo: Morte. Portanto, "bem aventurados são os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus." Assim diz a Bíblia, e assim o é, pois aquele que tem fé deixa de ser atormentado por perguntas, é cego, reles, estúpido, inferior, mas é estupidamente feliz. Foi cedo que o ego do Homem se expandiu e se tornou venerável. Colocar-nos num pedestal e olharmo-nos de fora. Que orgulho! Que poder! Que egoísmo! Que podridão tão prazerosa! A ascenção do homem fez-se do ego. Neotenia? Sim, mantemos para sempre a curiosidade de uma criança, e sim, também seremos sempre umas crianças mimadas e egocêntricas. Um bebé de 1 mês não tem percepção de nada senão de si. Assim nós somos, vemo-nos como centro e propósito do universo girar e de toda a vida existir. Auto-aniquilamo-nos porque Deus assim o quer, porque nós assim o queremos. Reinamos por toda a terra, criamos e destruímos, é um facto. Somos donos e senhores de nós mesmos, mas somos muitos e temos medo da anarquia. Então, como camponeses amedrontados, precisamos do nosso Senhor, duma organização hierárquica, do mestre das marionetas. Somos marionetas da nossa própria criação, somos essa criação. Somos a mais pura e bela das criaturas, ou assim nos queremos fazer parecer. A condição humana como deve ser por natureza é imoral, pecaminosa, somos seres de desejos, tentações, vontade, sonhos e inconsciência. E no entanto, sabendo nós que isto é oposto do Deus recto que criámos, vemo-nos como nossos próprios Deuses, pois nos convencemos que apenas reinando no pecado a bondade se distinguirá. De facto distingue, tem como hábito ser cruxificada mais ou menos literalmente. O mártir, o santo apedrejado, cuspido e repugnado. Na sua vida terrena foi bom, é por conseguinte escumalha. Na vida celeste será igual a todos os imorais que o apedrejaram, escumalha bem tratada. A ideia de Deus reside na imoralidade e no pecado. Aquele que julga pela intenção e não pela acção é imoral e facilmente enganável. Assim nós o queremos, um juiz benevolente e facilmente corrompido. Todos os que temem o juízo final temem a Deus e são cumplices desta imoralidade. Aqueles que não participaram na sua criação temem ao homem ou não temem. Quem não teme é louco, e quem teme ao homem, tem medo de si e vive no desespero e perdição. Por temermos o desespero tememos a Deus, e no entanto não sabemos o que este é. Caminhamos para o desconhecido desconhecivel como um louco se lança para um comboio.
Vencemos os nossos medos primitivos? Não, apenas os embelezámos.
"Ashes to ashes, dust to dust..."
E assim, com a mesma facilidade com que um padeiro cria um pão ou um filho com a vizinha, o homem criou Deus à sua imagem e semelhança e todas as respostas foram dadas. Afinal, que interessa se a resposta é falsa? No fim, é tudo o mesmo: Morte. Portanto, "bem aventurados são os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus." Assim diz a Bíblia, e assim o é, pois aquele que tem fé deixa de ser atormentado por perguntas, é cego, reles, estúpido, inferior, mas é estupidamente feliz. Foi cedo que o ego do Homem se expandiu e se tornou venerável. Colocar-nos num pedestal e olharmo-nos de fora. Que orgulho! Que poder! Que egoísmo! Que podridão tão prazerosa! A ascenção do homem fez-se do ego. Neotenia? Sim, mantemos para sempre a curiosidade de uma criança, e sim, também seremos sempre umas crianças mimadas e egocêntricas. Um bebé de 1 mês não tem percepção de nada senão de si. Assim nós somos, vemo-nos como centro e propósito do universo girar e de toda a vida existir. Auto-aniquilamo-nos porque Deus assim o quer, porque nós assim o queremos. Reinamos por toda a terra, criamos e destruímos, é um facto. Somos donos e senhores de nós mesmos, mas somos muitos e temos medo da anarquia. Então, como camponeses amedrontados, precisamos do nosso Senhor, duma organização hierárquica, do mestre das marionetas. Somos marionetas da nossa própria criação, somos essa criação. Somos a mais pura e bela das criaturas, ou assim nos queremos fazer parecer. A condição humana como deve ser por natureza é imoral, pecaminosa, somos seres de desejos, tentações, vontade, sonhos e inconsciência. E no entanto, sabendo nós que isto é oposto do Deus recto que criámos, vemo-nos como nossos próprios Deuses, pois nos convencemos que apenas reinando no pecado a bondade se distinguirá. De facto distingue, tem como hábito ser cruxificada mais ou menos literalmente. O mártir, o santo apedrejado, cuspido e repugnado. Na sua vida terrena foi bom, é por conseguinte escumalha. Na vida celeste será igual a todos os imorais que o apedrejaram, escumalha bem tratada. A ideia de Deus reside na imoralidade e no pecado. Aquele que julga pela intenção e não pela acção é imoral e facilmente enganável. Assim nós o queremos, um juiz benevolente e facilmente corrompido. Todos os que temem o juízo final temem a Deus e são cumplices desta imoralidade. Aqueles que não participaram na sua criação temem ao homem ou não temem. Quem não teme é louco, e quem teme ao homem, tem medo de si e vive no desespero e perdição. Por temermos o desespero tememos a Deus, e no entanto não sabemos o que este é. Caminhamos para o desconhecido desconhecivel como um louco se lança para um comboio.
Vencemos os nossos medos primitivos? Não, apenas os embelezámos.
"Ashes to ashes, dust to dust..."
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Outono
Choveu, finalmente choveu. Andava com saudades de apanhar uma molha. Dai ao Outono o que é do Outono, e tirai ao verão o que não lhe pertence. A culpa é do aquecimento global, os ambientalistas barbudos e cabeludos bem avisaram, mas quê? Dar ouvido a cabeludos hippies? Agora se é o Al-gore...
As andorinhas já foram, as folhas caem ensopadas, os campos alagam-se e toda a sujidade parece multiplicar-se numa torrente de lama adoravelmente porca.
O tempo cinzento cria uma certa inércia, nostalgia, ficamo-nos a olhar por uma janela molhada para a dança das folhas caídas, estupidamente quedos.
Queremos exprimir um vazio e portanto tentamos encher chouriço com parvoíces no blog.
As andorinhas já foram, as folhas caem ensopadas, os campos alagam-se e toda a sujidade parece multiplicar-se numa torrente de lama adoravelmente porca.
O tempo cinzento cria uma certa inércia, nostalgia, ficamo-nos a olhar por uma janela molhada para a dança das folhas caídas, estupidamente quedos.
Queremos exprimir um vazio e portanto tentamos encher chouriço com parvoíces no blog.
In-existence
I look away, into the neverending horizons of oblivion. Than I look again, within myself, I see childish mourning and weeping for a neverending past, I see a burning desire for freedom and a nevercoming future. Everything delighfully filled with bliss, peace, love, hopeless dreams from a somehow lost soul.
"All dreams end here
Where our cries began
Resounding to museums
Of a world we believed
Neverending
And we stop
Exhausted
Beginning
Not again
And the panic
Like the light
Of some star
Exploding
Flashing in black holes of not knowing
If we ever made a away out of this mud"
"All dreams end here
Where our cries began
Resounding to museums
Of a world we believed
Neverending
And we stop
Exhausted
Beginning
Not again
And the panic
Like the light
Of some star
Exploding
Flashing in black holes of not knowing
If we ever made a away out of this mud"
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