domingo, 21 de fevereiro de 2010

Lógica

Hoje estou com vontade de postar, mandar postas, bater contra um poste ou qualquer coisa assim. Como não há bacalhau (e isto é mais triste do que parece) nem tenho postes dentro de casa (há quem tenha sinais de trânsito, portanto a possibilidade de haver um poste dentro de casa não parece tão remota) lá tive de postar.
E subitamente, nesta urgência de postar, surgiu-me na cabeça "poio". Todo este blog é cocó fresquinho afinal. Mas depois pensei, se poio é cocó, aquilo que não é ou se vê ausente de cocó é apoio. Sendo que apoio em francês é soutien, soutien é tudo aquilo que não tem cocó, e daqui pude finalmente deduzir que mamas são boas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Manifesto Ex Nihilo

Os olhos estalam-me e piscam prequelitantemente
Numa abuia ao revolucionário objecto ocular.
Aquele que nada novo me faz ver
e do velho só mostra as entranhas, revolvidas e putrefactas
que cavalgante e loucamente impulsionam e propulsam o sangue.
O visceroso, fervoroso e mucoso líquido escarlate.
O sangue de toda a besta humana,
de toda a paixão, guerra, vingança e matança preguiçosa,
o sangue da seringa que te viola toda a inocência e toda a pureza em cada poro
O sangue que te ebule e te mata a consciência.
O pulsar jusante de vida que impulsiona esse vómito e esse nojo para toda esta panóplia grotesca de sensações abjectas.

Sim, a futilidade do eu, do tu e do vós.
Ah, tanta alta metafísica e elaborada religiosidade,
Tanta tecnocracia e industrialidade.
"Tudo existe porque tudo provamos,
tudo provamos porque o tudo queremos,
o tudo é tudo porque sempre fui e há de ser tudo,
e somos tudo porque criamos o tudo"

Escorre-vos medo pelas cavidades,
Medo de que toda a bela criação, evolução, progressão e deificação se suma num suspiro,
Medo que se dissolva num vórtice de entropia tomando por mero absurdismo entretinente toda a vossa acção deliberada no propósito abissal.
Que se arraste sem que vos arraste a vós para o abismo da verdade e vontade metamorfa,
que tão bem se engana como engana a vós na sua indubitavelmente dúbia inexistência.

E acordas, ofegante, suado, delirante.
Afogas-te na tua loucura porque a desejaste.
Desde a precária e desmesurada génese teotécnica que ardes
Ardes no desejo, no amor e na paixão,
Ardes na blasfema tentação de te tentares pela blasfémia,
Ardes por arder na monumentalidade da pira noctívaga.
Combustas nas tuas reles e macabras dúvidas
e voltas a drogar a máquina.

A máquina das rodas dentadas que te mastigam ruminam e regurgitam,
Dos êmbolos que te violam, cíclica e pendularmente com o bater e respirar maquinal de uma fera sedenta e raivosa.
A máquina dos intermináveis indetermináveis erros de seriação e provocação.
Os magistrais e ancestrais eixos da universalidade sustentada,
Os que erguem bem alto a cortina intoxicante e dolorosa,
A do toque acetinado que te acaricia intolerantemente com toda a angústia e sofrimento,
A decoração prostrada e luxuriosa que te consome de inveja e possessão.

E mais que tudo, o delírio desvairantemente desvariado da curiosidade sufocante.
Escorres sedimentado para o abismo conforme a verdade se desintegra aos teus olhos e absolves-te no vazio.
No frio e escuro vazio necrófago.

Num fôlego, vês a carnivalesca versão do mundo:
O desfile das utopias canibais,
Os carros alegóricos a radiar a euforia cósmica,
E a forja das vaidades teatrais
Onde, lenta e dolorosamente, se derretem as máscaras e identidades.

O ar expirou, numa nuvem vaporizada e espiralesca,
dissipando-se no cosmos, tão disperso e acolhedor, o cosmos.
Espairas asas como a fénix e sobrevoas o abismo,
consagras-te sob a catarata do aço líquido
e projectas-te inconscientemente no infinito.

Numa acreção mórbida vês-te rodeado de toda a vermalhada podre.
Desintegras-te em matéria excreta e adubante e dissipas-te.
Dissipas-te num ciclo sumptuoso, tortuoso, e ironicamente voluptuoso do último fôlego
O do nada, tão profundo e absoluto, que de trevas te ilumina.
Do nada que te engole, na garganta funda e sórdida,
tão abismalmente asquerosa,
tão delirantemente esclarecida.
E que num vómito convulso de nojo te eterniza nessa eternidade inexistente

E de repente és a criança afortunada e ingénua outra vez,
a descer o escorrega vortiçal até ao nirvana.

És nada, não és, não foste.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vive

Olhas para o alto, e esperas.
Esperas que a chuva te lave e te leve.
esperas que te lave as lágrimas
e que te limpe o suor.
Esperas que te enxague o sangue,
tão vivido e gasto,
o das tuas mãos e o dos outros.
Esperas que te levem e te arrastem
nas torrentes de lama e lixo,
que de tão sujas te lavam.

E rebolas,
gritas,
despes-te.
Gastas-te e esfolas-te
Exausta, deixas-te cair para os braços de ninguém.
E adormeces, a sorrir,
a sonhar com uma qualquer coisa
que nem é deste mundo
de tanto que te faz sorrir.
Estás quente, aconchegada,
não queres acordar,
não acordas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O queijo da serra é carnívoro e cheira mal da boca.

O queijo da serra é carnívoro e cheira mal da boca.
Ora bem, o que se sucede é que o leite da ovelha tem instinto e vontade própria, amamentar o borrego. Ora, o queijo, como é sabido, é a perversão do leite (resta dizer que o requeijão é uma espécie de exorcismo, daí que já venha tão mole e desfeito, é que isto de entrar demónio, sair demónio é um stress que dá cabo de qualquer um.) Por conseguinte, se o propósito do leite é dar vida ao borrego, o do queijo será tirar. Portantos, o queijo da serra mata a cria da ovelha e digere-o, o que lhe confere o aspecto tosco e amanteigado. Resta dizer que o "amanteigado" é nhanha.

"Crê que uma anarquia baseada na ética deontológica postulada por Kant seria uma utopia viável ou que para haver progresso é necessária implicitamente uma hierarquia e ordem?" "O queijo da serra come borregos e cabritos putrefactos, o que lhe confere a textura amanteigada que tanto apreciamos", isto era win over limiano, digo.

E assim se dá a explicar a razão pela qual as pessoas que gostam de borrego tendem a gostar de queijo da serra. (Qual razões sócio-culturais relacionadas com a pastorícia do gado bovino...)

domingo, 17 de janeiro de 2010

V - A Queda

Lúcifer, o mais belo e perfeito dos anjos. Iludido pela sua perfeição, rebelou-se e quis usurpar o trono de Deus. Fui expulso e exilado por se recusar a servir a Deus e consequentemente à sua criação, o homem. Caiu. E com ele as suas hostes corrompidas de orgulho e pecado. Ele era a luz e essa luz fora levada para o submundo.
Arfava, cansado. O ar frio, a neve e a sombra da floresta agonizavam-lhe a respiração. Não obstante, regozijava. Conseguia ver o enorme sol a amanhecer diante dele e a alumiar todas as terras das gentes pequenas. Dava-se feliz por estar circundado daquelas montanhas arrepiantes, pareciam proteger aquela gente inocente de todo o mundo à volta. Aquele mundo do qual apenas tinham uma vaga ideia muito aconchegada à das histórias adulteradas dos mercadores que lá passavam. Diziam que havia um homem, um rei, um déspota, que queria unificar todo o mundo num só reino. Ao que parece, aquilo que começara como uma utopia de um homem esclarecido e sábio, estava a tornar-se numa carnificina global.
Por onde passava trazia choro, sangue e putrefacção. Violavam, pilhavam, saqueavam, matavam, e regozijavam-se naquele banho de sangue. A cor vermelha e o gritos de horror pareciam despertar todo o ódio e loucura nos soldados. Tornaram-se criaturas sedentas de sangue, que não podiam largar o vício. Para as jornadas mais longas, quando a sede da batalha começa a secar, levavam prisioneiros, para os poderem mutilar e chacinar num acto masturbatório.
As hostes moviam-se sob quatro estandartes: Um, o da cavalaria regia-se pela máxima "veni, vidi, vici", bem visível num pano branco que ondulava orgulhosamente no vento. Outro, o da infantaria pesada, espadachins experientes, besteiros e outros que tais, regia-se por um estandarte vermelho com duas espadas curzadas. Dizia-se que nas suas veias corria sangue de espartanos. O terceiro, trazia com ele a peste. Pouco sabiam de guerra e de armas aqueles covardes, mas queimavam, violavam e destruiam tudo quanto viam, não conquistavam, mas espalhavam o desespero e a discórdia. E havia o quarto e último. Todos pareciam temer perante ele. Não trazia um estandarte, apenas um tridente com três cabeças putrefactas espetadas. Aquele exército fedia a morte, eram criaturas que já tinham esquecido o que era viver. Matavam maquinalmente e espalhavam o terror. Não tinham nome nem história. Nunca existiram nem nunca hão de existir, eram simplesmente, a morte.
No dia seguinte, o sol surgiu vermelho, por detrás da montanha. As hostes haviam chegado àquele lugar remoto. O que era verde secou, os rios cristalinos ficaram vermelhos. A neve derreteu coberta pelo fumo. Os homens daquela harmoniosa terra, no desespero e no terror, pareceram ter perdido a alma e o discernimento. Matavam-se por fatias de pão, possuiam as mulheres uns dos outros, e parecia haver um novo chefe a cada 5 minutos tal era o desejo de poder e a presunção.
O Homem quis ser Deus, e possuir-se a si mesmo. Perdeu a alma e a essência. O homem é pequeno e deve resignar-se. O desejo de não desejar por tudo possuir é pecaminoso Ame-se, viva-se, libertem-se aos prazeres da carne e do sangue. Aquilo que nos alumia e faz viver, nada mais é senão a luz do desejo. O Homem que sonhe e que deseje, mas que não se torne mestre dos seus sonhos. Somos luz e escuridão. Aquele que ouse chegar à luz cega-se e fica para sempre preso na escuridão. Não há nada que nos corrompa, nem que acelere o nosso fim senão aquilo que está em nós. No entanto, enquanto não o conhecermos, poupamos essa agonia e continuamos a temer aquilo que não existe. Perder o medo é morrer, morrer é ter medo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O pêndulo e o croquete

O croquete estava na ponta do pêndulo. E balançava. E o cão saltava, mas não o apanhava. O croquete estava aborrecido, de um lado para o outro, a deixar migalhas de pão ralado numa espécie de nuvem electrónica mal amanhada. E a carne esfriava, e o arroz esfriava.

E ei-lo que surge! O douradinho, trazendo a luz e a confusão, o pânico e a idolateração. O supremo pescada. E no entanto, trazendo tanto brilho e admiração, apenas passa fugaz e fumegante, para um outro prato qualquer de arroz de tomate sedento.

Couves, terrábias, salada, nada o salva o croquete era seco e frígido. Carne gasta e moída.

Mandou vir a sobremesa.
Era mousse de ananás, de ananás.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Manifesto Anti-anti-social

Os anti-sociais, são pessoas más, e pouco escrupulosas,
Porque cascam numa sociedade que está podre.
Às coisas podres, põem-se flores e rezam-se missas,
ou pelo menos, tem-se pena.

E que raio tendes vós contra a podridão,
cheira mal?
é esquisita?
tem nhanhaa?

Quão santos e sacros sois vós afinal?
Nada vos motiva senão o ódio e a ganância,
Odeiam-nos e querem ser como eles.
Querem tanto a carne e o sangue como eles.
Oh, querem tanta carne.
Se pudessem, chacinavam-nos a todos e montavam um talho
Mas depois, a carne está podre, quem a ia querer?
E depois deprimiam, os coitados,
precisam de se integrar na sua desintegração,
mariquice, é o que é.

E agora, morremos todos, querem ver?
Uuuh, Julgamento final...
Não era isso que queriam?
Vá, façam lá esses sorrisinhos malandros e caras de "I told you".
Que interessa?
Também vão arder!
Ha-Ha!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Le morts de Notre Dame de Paris

A monotonia dança, envergonhada e macambúzia, tomada pelo braço embrutecido dum qualquer maestro mascarado, enquanto ele agita, de igual monótono modo, a sua batuta, regendo uma orquestra de sofredores esquizofrénicos, violadores masoquistas e inquisidores apicultores. Entoam, muito sincromáticamente, uma ode a tudo de que lhe foi tirado. A morte, a vida e a confotável consciência. Tiveram pátria e família, apegaram-se ao mundo, e subitamente, tudo lhes tinha sido aspirado, estavam nus, doentes, e dementes.
Gritaram e gritaram, até que esses gritos ecoassem algo que os apaziguasse. Depois choraram, e esperaram que das lágrimas se fizesse um rio que desaguasse num qualquer mar de nostalgia melancólica. Deixaram-se levar pelos delírios, até que se encontraram, ali, naquele antro magestoso, aterrorizante, frio e escuro. A acústica fazia parecer o simples cair de uma pinga uma tempestade, e o vento que esbatia uma voz de um qualquer Deus ancestral.
Ali, só encontraram mais terror. Os gritos e prantos angustiosos só lhes esvaziavam a alma e o silêncio cavernoso parecia devorar tudo o que de humanos lhes restava. E subitamente, com o cair de uma pedra, gritaram todo o que lhes saía, e desses gritos saíram cantos, de um coro enraivecido e sobrenaturalmente assustador. Reminescia, em quem ouvia, tudo o que de mais podre e vil existe: o ódio, a carnalidade, o medo. Dizia-se que quem entrava na sua catedral enlouquecia, e se tornava um deles. Até as gárgulas pareciam entoar o canto macabro.
Escutava-se a morte à porta daquele edifício, era linda, a coisa mais bela e majestosa, nela ardia o desejo e a negação, o prazer e a angústia, dor e mais dor e mais dor, o terror gelado, e por fim, a vida. Tornaram-se transcendentes à sua consciência.
Mortos, prepetuaram a sua morte naquela sinfonia.
Eu tenho de cair para me levantar, e tenho de estar de pé para cair. Quer rasteje quer ande a vida toda a pé, vai dar ao mesmo, nunca soube realmente o que era levantar-me ou o que era cair.

Agora já quero asas.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Cambada de leprosos, estão a cair aos pedaços.
As vossas entranhas, a vossa carne,
o sangue que é vosso e dos vossos,
gorduroso, pastoso, preguiçoso e lânguido.
Apodrecem e não morrem.
Tão vazia é vossa alma,
que nem vale a pena devolve-la ao mundo.
Dão logo esse corpo, reles e molengo,
e dão-lo a consumir, por entre vós,
pela peste, pela lepra,
pelos vermes que rastejam na vossa existência,
e pelos demais que vos querem comer.
Canibais moribundos e necrófagos imundos,
Assim é a vida e assim viveis.
Ide em paz.
A musa é a arte que inspira à criação da arte. Sem ela, não há arte nem criador. A musa necessita de ser criada, concebida, ou pelo menos admirada. A musa é o puro abstracto que apenas se concretiza no sujeito, é a beleza, para a obra bela de um criador inspirado, é o ódio para aquele que odeia, é a dor para o que sofre. Para haver arte, há que haver sentimento. Quando este fluxo for interrompido, quer por falta de musa ou falta de arte, a humanidade estagnará, pois ficará preenchida de tédio e vazio.

Deixa que te admire, deixa que te sinta, deixa-me viver e ser humano enquanto possa. Deixa que te crie tudo e nunca te deixe ver, deixa que eu sofra, deixa que eu deseje, e nada mais.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Estou nu, despojado de tudo.
Tiraram-me os bens e as inutilidades
Os amigos, a família, esses outros.
Amor, ódios, culpa, ressentimentos
e todos os demais pensamentos
já não os conheço.
Aos sonhos e aos desejos,
deixo-os com o sentimento,
de que em algum momento,
tenham sido mais que isso.

Agora vou renascer,
viver de novo,
e acordar com esta panca
de que quero outra vida.
O caminho do progresso é a reconstrução de paradigmas. Este blog está preso a um paradigma, como tal, é preciso acabar com todos os padrões, valores e demais associados, para que progrida.

Aqui vai:

Tu és cócó.

Ciclo da vida

A vitela comia erva. E engolia, e mastigava, e ruminava, e voltava a mastigar, a ruminar. E assim se fazia a sua vida. Até que um dia chegou lá um belo dum gafanhoto e disse: "Ah, e tal, eu e mais uns quantos amigos vamos-te comer a erva toda." E ela "Ah, tá bem". E eles vieram, e com eles trouxeram a peste, a fome, algumas hemorróidas, e uma comichão na orelha do Sr. Jaquim, que afinal de contas era só um piolho afogado em sarro. E assim, as vacas ficaram sem erva, os homens ficaram sem leite, e os chineses continuaram a ser mais que as mães. Com tamanha tragédia, a vitela foi pastar para outro lado, onde conheceu um ganda boi. Apaixonaram-se e ela ficou prenha. (Isto com bicharada costuma ser bastante imediato.) Um dia, ia o boi a voltar a casa depois de um dia stressante de trabalho e conforme ia a atravessar para ter com a sua amada veio um camião. Ela bem gritou "Oh boi, sai da estrada!" mas em vão. Despedaçado o coração da vitela (agora vaca), fizeram-se iscas.
Bem boas que estavam.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sapiência

"Os pelos na orelha não só a maneira da natureza te dizer que não deves ouvir os outros"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Egeiro

Ele acordou, era mais um dia, igual a tantos outros. Espreguiçou-se mecanicamente num bocejo preguiçoso. Levantou-se, ainda a coçar a virilha, e abriu as cortinas. Estava um dia cinzento, chuvoso, carrancudo. Cumpriu todos os ritos matinais, e fez-se a mais um dia de ócio. Ele era mais um daqueles estorvos sociais: não trabalhava, vivia da herança duma tia rica, era, em suma, um parasita.
Mas esta manhã fora estranha, ou pelo menos, assim lhe parecera. O cão do vizinho não lhe ladrara nem correra atrás dele. Aliás, nem notara a sua presença, ficara de orelhas hirtas a escutar o vento. A pastelaria onde ia comer a sua tão adorada bola de berlim, estava fechada, com um daqueles letreiros de volto já que duram para a manhã toda. No entanto, lá teve de se resignar e seguir com as inutilidades da sua rotina. Sentou-se no seu banquinho de jardim, e pôs-se a mirar as árvores, as mesmas árvores de sempre sob o mesmo céu de sempre, no mesmo jardim de sempre, a sua vida tinha sido aquilo.
Conforme percorria as ruas daquela cidade, uma cidade cinzenta, suja, apinhada de gente sem vontade nem destino, apercebia-se do quão acomodado estava e do vazio que aquelas multidões lhe provocavam. Quanto mais deambulava, mais se apercebia de que era apenas mais um, uma coisa corriqueira sem identidade que fazia número e nada mais. Via nas pessoas os olhares distantes, perdidos em devaneios e sonhos de uma vida não vivida. Via a indiferença com que a gente se dava, os falsos afectos, os sorrisos cínicos. E nessa maré de gente, via-se a si: só, desorientado, angustiado sem saber bem de quê ou de quem era a culpa. Não encontrava ponta de significado ou sentido no meio daquilo tudo. A vida daquelas gentes, para ele, não se assemelhava a nada mais do que cotão, um aglomerado de lixos e futilidades emaranhadas que andavam ao sabor do vento.
Pelo caminho desse seu passeio matinal (que já pouco matinal era, o sol ia alto e as cozinhas dos restaurantes já fervilhavam de cheiros e fumos) parou na Igreja. Não que ele fosse muito crente, mas achava o monumento bonito e o fascínio pela arquitectura prendia-o sempre naquele local. Especou-se ali, e maravilhou-se: com a estética, com o trabalho, e com a fé que motivara tudo o mais. Desejara acreditar, desejara ser um cordeiro que seguisse o rebanho inocentemente até ser abatido pelo seu pastor.
Um forte odor de carne a grelhar invadiu-o e fê-lo salivar e evadir-se de todo aquele remoer ruminante de dissertações. Um nó torceu-lhe o estômago e, pouco relutantemente, lá sucumbiu aos prazeres alimentícios. Espetaram-lhe um bife essanguetado na frente e ele devorou-o, qual besta faminta e primitiva. O sabor ferroso do sangue do bovino anónimo ficara-lhe no paladar pela tarde fora.
Fez-se tarde, voltou para casa cheio de vazio. Olhou para a cama. Os lençóis estavam manchados de sangue. Neles, jazia o seu corpo, morto, inanimado e com uma bala cravada nos miolos.
Despertara, o dia voltara a ser o mesmo.

domingo, 29 de novembro de 2009

É tão giro indrominar isto de coisinhas para que as pessoas não vejam os posts decentes.
"nhé..."

Ego, oh ego.

Finjo que sou complexo o suficiente para o poder fingir.

Dissertações/ Dissecações - IV

O peso da consciência,
é o da cabeça oca
sobre a mão aborrecida.
A inquietude
é o formigueiro.

intemporalidades

Vou morrer anteontem,
porque vivo a desejar o ontem
enquanto nasço para amanhã
sem saber o que amanhã é.